
(Foto: Reprodução)
Se o clima entre Donald Trump e Benjamin
Netanyahu já estava azedo, o presidente americano tratou de
piorá-lo nesta terça-feira (16), ao sugerir que o novo regime sunita da Síria poderia
“dar um jeito no Hezbollah”
e dar conta do recado de forma mais responsável do que ele julga que o premiê
de Israel vem
fazendo no Líbano.
“Você não precisa demolir um
prédio de apartamentos toda vez que estiver procurando por alguém”, afirmou
Trump. “Se Israel não conseguir fazer o trabalho sem matar todos os outros, ele
(Ahmed al-Sharaa, presidente sírio) fará o trabalho.”
A proposta de
Trump para a intervenção síria no Líbano é irreal - embora
ele tenha se
aproximado do presidente sírio, um ex-jihadista sunita -,
mas equivale a um novo soco no estômago de Netanyahu, que nas últimas
semanas ouviu insultos e palavrões do presidente americano.
Trump, inclusive, fez questão de
vazá-los, insatisfeito
com a ofensiva crescente dos ataques de Israel no Líbano, que
era impeditivo para um acordo com o Irã.
A urgência de Trump em encerrar a
guerra atropelou Netanyahu, que a cinco meses das eleições, sai isolado e como
perdedor no confronto com o Irã, sem alcançar seus objetivos de
eliminar o programa nuclear e mudar o regime.

O presidente Donald Trump
responde a uma pergunta de um repórter ao final de uma coletiva de imprensa com
o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em Mar-a-Lago, em 29 de
dezembro de 2025, em Palm Beach, Flórida. — Foto: AP/Alex Brandon, arquivo
O premiê perde também
internamente depois de fracassar na promessa de, com a guerra, traria paz aos
israelenses.
O variado espectro político de
Israel, incluindo os aliados do primeiro-ministro, reagiu mal ao anúncio do
acordo entre EUA e Irã, firmado à revelia e sem a participação
do chefe de governo.
Netanyahu
convenceu Trump a entrar na guerra, mas foi deixado de fora na hora de sair
dela - sequer teve acesso aos termos do acordo. Mas ainda
parece disposto a
resistir em manter suas tropas no Sul do Líbano.
No entender do colunista Amos
Harel, especialista em assuntos militares do jornal “Haaretz”, o confronto com
o Irã se configurou como o segundo pior fiasco na longa carreira do premiê,
atrás do massacre do Hamas em 7 de outubro de 2023.
“Encerrar a guerra nesses
termos não é uma boa notícia para nenhum israelense porque o Irã parece ter
saído do conflito ainda mais forte e determinado”, escreveu o colunista.

'Nossa luta não acabou', diz
Netanyahu após EUA e Irã assinarem acordo de paz
Os objetivos iniciais de Trump em
relação ao Irã foram relegados e converteram-se numa meta primordia: a reabertura do
Estreito de Ormuz.
Embora os
termos do acordo ainda não estejam claros, os custos políticos
podem ser altos para o atual governo: o programa nuclear não foi desmantelado e
os fundos
congelados à República Islâmica devem ser liberados.
Mais uma vez, fica a sensação de
looping no ciclo de tensões com o Irã. Mas a guerra serviu para minar o
número de aliados de Netanyahu nos EUA, assim como a influência que ele exercia
sobre o presidente americano.
O premiê israelense sabia
manobrar a bajulação a Trump e chegou a
indicá-lo para o Prêmio Nobel da Paz. Como recíproca, era chamado
de herói e tinha no presidente um defensor do indulto a seus imbróglios na
Justiça por corrupção.
Embora publicamente neguem a
ruptura, ambos caminham a passos largos para uma relação, no mínimo,
deteriorada, a despeito da preservação de interesses mútuos entre os dois
países.
Netanyahu
agora é tachado de maluco, complicado e sem um pingo de bom senso,
para citar os adjetivos mais amenos proferidos por Trump. O apoio a Israel
despencou nos EUA. Dificilmente, o premiê terá argumentos plausíveis para
convencer o presidente americano a embarcar em outra empreitada militar.
Decretar, contudo, a humilhação
pública de Netanyahu ao fim de sua longeva carreira política em Israel é sempre
prematura. O vago teor do memorando de entendimentos entre EUA e Irã pode dar a
ele mais uma chance de sobrevivência.